O lúdico tem sua origem na
palavra latina "ludus" que quer dizer "jogo".Se se achasse confinado
a sua origem, o termo lúdico estaria se referindo apenas ao jogar,
ao brincar, ao movimento espontâneo.
A
evolução semântica da palavra "lúdico", entretanto, não parou apenas
nas suas origens e acompanhou as pesquisas de Psicomotricidade. O
lúdico passou a ser reconhecido como traço essencial de
psicofisiologia do comportamento humano. De modo que a definição
deixou de ser o simples sinônimo de jogo. As implicações da
necessidade lúdica extrapolaram as demarcações do brincar
espontâneo.
Passando a necessidade básica da
personalidade, do corpo e da mente. O lúdico faz parte das
atividades essenciais da dinâmica humana. Caracterizando-se por ser
espontâneo funcional e satisfatório.
Sendo
funcional: ele não deve ser confundido com o mero repetitivo, com a
monotonia do comportamento cíclico, aparentemente sem alvo ou
objetivo. Nem desperdiça movimento: ele visa produzir o máximo, com
o mínimo de dispêndio de energia.
Segundo
Luckesi são aquelas atividades que propiciam uma experiência de
plenitude, em que nos envolvemos por inteiro, estando flexíveis e
saudáveis. Para Santin, são ações vividas e sentidas, não definíveis
por palavras, mas compreendidas pela fruição, povoadas pela
fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias
urdidas com materiais simbólicos. Assim elas não são encontradas nos
prazeres estereotipados, no que é dado pronto, pois, estes não
possuem a marca da singularidade do sujeito que as
vivencia.
Na atividade lúdica, o que importa
não é apenas o produto da atividade, o que dela resulta, mas a
própria ação, o momento vivido. Possibilita a quem a vivencia,
momentos de encontro consigo e com o outro, momentos de fantasia e
de realidade, de ressignificação e percepção, momentos de
autoconhecimento e conhecimento do outro, de cuidar de si e olhar
para o outro, momentos de vida.
Uma aula com
características lúdicas não precisa ter jogos ou brinquedos. O que
traz ludicidade para a sala de aula é muito mais uma "atitude"
lúdica do educador e dos educandos. Assumir essa postura implica
sensibilidade, envolvimento, uma mudança interna, e não apenas
externa, implica não somente uma mudança cognitiva, mas,
principalmente, uma mudança afetiva. A ludicidade exige uma
predisposição interna, o que não se adquire apenas com a aquisição
de conceitos, de conhecimentos, embora estes sejam muito
importantes. Uma fundamentação teórica consistente dá o suporte
necessário ao professor para o entendimento dos porquês de seu
trabalho. Trata-se de ir um pouco mais longe ou, talvez melhor
dizendo, um pouco mais fundo. Trata-se de formar novas atitudes, daí
a necessidade de que os professores estejam envolvidos com o
processo de formação de seus educandos. Isso não é tão fácil, pois,
implica romper com um modelo, com um padrão já instituído, já
internalizado.
A escola tradicional, centrada
na transmissão de conteúdos, não comporta um modelo lúdico. Por isso
é tão freqüente ouvirmos falas que apóiam e enaltecem a importância
do lúdico estar presente na sala de aula, e queixas dos futuros
educadores, como também daqueles que já se encontram exercendo o
magistério, de que se fala da importância da ludicidade, se discutem
conceitos de ludicidade, mas não se vivenciam atividades lúdicas.
Fala-se, mas não se faz. De fato não é tão simples uma transformação
mais radical pelas próprias experiências que o professor tem ao
longo de sua formação acadêmica.
Como bem
observa Tânia Fortuna, em uma sala de aula ludicamente
inspirada,
convive-se com a aleatoriedade, com o imponderável; o
professor renuncia à centralização, à onisciência e ao controle
onipotente e reconhece a importância de que o aluno tenha uma
postura ativa nas situações de ensino, sendo sujeito de sua
aprendizagem; a espontaneidade e a criatividade são constantemente
estimuladas.
Podemos observar que essas atitudes, de um modo
geral, não são, de fato, estimuladas na escola. Para Jucimara: "as
atividades lúdicas permitem que o indivíduo vivencie sua inteireza e
sua autonomia em um tempo-espaço próprio, particular. Esse momento
de inteireza e encontro consigo gera possibilidades de
autoconhecimento e de maior consciência de si".
São lúdicas as atividades que propiciem a
vivência plena do aqui-agora, integrando a ação, o pensamento e o
sentimento. Tais atividades podem ser uma brincadeira, um jogo ou
qualquer outra atividade que possibilite instaurar um estado de
inteireza: uma dinâmica de integração grupal ou de sensibilização,
um trabalho de recorte e colagem, uma das muitas expressões dos
jogos dramáticos, exercícios de relaxamento e respiração, uma
ciranda, movimentos expressivos, atividades rítmicas, entre outras
tantas possibilidades. Mais importante, porém, do que o tipo de
atividade é a forma como é orientada e como é experienciada, e o
porquê de estar sendo realizada.
Enquanto educadores damos ênfase
às metodologias que se alicerçam no "brincar", no facilitar as
coisas do aprender através do jogo, da brincadeira, da fantasia, do
encantamento. A arte-magia do ensinar-aprender (Rojas, 1998),
permite que o outro construa por meio da alegria e do prazer de
querer fazer.
O jogo e a brincadeira estão
presentes em todos as fases da vida dos seres humanos, tornando
especial a sua existência. De alguma forma o lúdico se faz presente
e acrescenta um ingrediente indispensável no relacionamento entre as
pessoas, possibilitando que a criatividade
aflore.
Por meio da brincadeira a criança
envolve-se no jogo e sente a necessidade de partilhar com o outro.
Ainda que em postura de adversário, a parceria é um estabelecimento
de relação. Esta relação expõe as potencialidades dos participantes,
afeta as emoções e põe à prova as aptidões testando limites.
Brincando e jogando a criança terá oportunidade de desenvolver
capacidades indispensáveis a sua futura atuação profissional, tais
como atenção, afetividade, o hábito de permanecer concentrado e
outras habilidades perceptuais psicomotoras. Brincando a criança
torna-se operativa.
Observamos que quando
existe representação de uma determinada situação (especialmente se
houver verbalizado) a imaginação é desafiada pela busca de solução
para problemas criados pela vivência dos papéis assumidos. As
situações imaginárias estimulam a inteligência e desenvolvem a
criatividade.
O ato de criar permite uma
Pedagogia do Afeto na escola. Permite um ato de amor, de afetividade
cujo território é o dos sentimentos, das paixões, das emoções, por
onde transitam medos, sofrimentos, interesses e alegrias. Uma
relação educativa que pressupõem o conhecimento de sentimentos
próprios e alheios que requerem do educador a disponibilidade
corporal e o envolvimento afetivo, como também, cognitivo de todo o
processo de criatividade que envolve o
sujeito-ser-criança.
A afetividade é
estimulada por meio da vivência, a qual o educador estabelece um
vínculo de afeto com o educando. A criança
necessita de estabilidade emocional para se envolver com a
aprendizagem. O afeto pode ser uma maneira eficaz de se chegar perto
do sujeito e a ludicidade, em parceria, um caminho estimulador e
enriquecedor para se atingir uma totalidade no processo do
aprender.
Percebemos em Machado (1966) o
ressaltar do jogo como não sendo qualquer tipo de interação, mas
sim, uma atividade que tem como traço fundamental os papéis sociais
e as ações destes derivadas em estreita ligação funcional com as
motivações e o aspecto propriamente técnico-operativo da atividade.
Dessa forma destaca o papel fundamental das relações humanas que
envolvem os jogos infantis.
Entender o papel
do jogo nessa relação afetiva-emocional e também de aprendizagem
requer que percebamos estudos de caráter psicológico, como
mecanismos mais complexos, típicos do ser humano, como a memória, a
linguagem, a atenção, a percepção e aprendizagem. Elegendo a
aprendizagem como processo principal do desenvolvimento humano
enfocamos Vygotsky (1984) que afirma: a zona de desenvolvimento
proximal é o encontro do individual com o social, sendo a concepção
de desenvolvimento abordada não como processo interno da criança,
mas como resultante da sua inserção em atividades socialmente
compartilhadas com outros. Atividades interdisciplinares que
permitem a troca e a parceria. Ser parceiro é sê-lo por inteiro.
Nesse sentido, o conhecimento é construído pelas relações
interpessoais e as trocas recíprocas que se estabelecem durante toda
a vida formativa do indivíduo.
Machado (1966)
salienta, que a interação social implica transformação e contatos
com instrumentos físicos e/ou simbólicos mediadores do processo de
ação. Esta concepção reconhece o papel do jogo para formação do
sujeito, atribuindo-lhe um espaço importante no desenvolvimento das
estruturas psicológicas. De acordo com Vygtsky (1984) é no brinquedo
que a criança aprende a agir numa esfera cognitiva. Segundo o autor
a criança comporta-se de forma mais avançada do que nas atividades
da vida real, tanto pela vivência de uma situação imaginária, quanto
pela capacidade de subordinação às regras.
A
ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade e não
pode ser vista apenas como diversão. O desenvolvimento do aspecto
lúdico facilita a aprendizagem, o desenvolvimento pessoal, social e
cultural, colabora para uma boa saúde mental, prepara para um estado
interior fértil, facilita os processos de socialização, comunicação,
expressão e construção do conhecimento.
A
formação do sujeito não é um quebra-cabeça com recortes definidos,
depende da concepção que cada profissional tem sobre a criança,
homem, sociedade, educação, escola, conteúdo, currículo. Neste
contexto as peças do quebra-cabeça se diferenciam, possibilitando
diversos encaixes. Negrine( 1994) sugere três pilares que
sustentariam uma boa formação profissional, com a qual concordamos:
a formação teórica, a prática e a pessoal, que no nosso
entendimento, a esta última preferimos chamá-la de formação lúdica
interdisciplinar. Este tipo de formação é inexistente nos currículos
oficiais dos cursos de formação do educador, entretanto, algumas
experiências têm-nos mostrado sua validade e não são poucos os
educadores que têm afirmado ser a ludicidade a alavanca da educação
para o terceiro milênio.
A formação lúdica
interdisciplinar se assenta em propostas que valorizam a
criatividade, o cultivo da sensibilidade, a busca da afetividade, a
nutrição da alma, proporcionando aos futuros educadores vivências
lúdicas, experiências corporais que se utilizam da ação do
pensamento e da linguagem, tendo no jogo sua fonte
dinamizadora.
Quanto mais o adulto vivenciar
sua ludicidade, maior será a chance deste profissional trabalhar com
a criança de forma prazerosa, enquanto atitude de abertura às
práticas inovadoras. Tal formação permite ao educador saber de suas
possibilidades e limitações, desbloquear resistências e ter uma
visão clara sobre a importância do jogo e do brinquedo para a vida
da criança.
Percebemos com isso que se o
professor tiver conhecimento e prazer, mais probabilidade existirá
de que os professores/aprendizes se utilizem desse "modelo" na sua
sala de aula. Nóvoa (1991) afirma que o sucesso ou insucesso de
certas experiências marcam a nossa postura pedagógica, fazendo-nos
sentir bem ou mal com esta ou aquela maneira de trabalhar na sala de
aula.
Ao sentir que as vivências lúdicas podem
resgatar a sensibilidade, até então adormecida, ao perceber-se vivo
e pulsante, o professor/aprendiz faz brotar o inesperado, o novo e
deixa cair por terra que a lógica da racionalidade extingue o calor
das paixões, que a matemática substitui a arte e que o humano dá
lugar ao técnico (Santin, 1990), permitindo o construir alicerçado
no afeto, no poder fazer, sentir e viver.
Poder vivenciar o processo do aprender colocando-se no lugar da
criança, permitindo que a criatividade e a imaginação aflorem
através da interdisciplinaridade enquanto atitude. A
intersubjetividade se mostre por meio do afeto e da alegria de poder
liberar o que cada sujeito (professor) trás consigo mesmo e quanto
pode contribuir com o outro.
Segundo Snyders
(1988) o despertar para o valor dos conteúdos das temáticas
trabalhadas é que fazem com que o sujeito aprendiz tenha prazer em
aprender. Conteúdos estes despertados pelo prazer de querer saber e
conhecer. Devemos despertá-los
para, com sabedoria, podermos exteriorizá-los na nossa vida diária.
A alegria, a fé, a paz, a beleza e o prazer das coisas estão dentro
de nós.
Por entender e concordar com o autor
percebemos que se o professor não aprende com prazer não poderá
ensinar com prazer. É isso que procuramos fazer em nossa prática
pedagógica, dando ênfase à formação lúdica: ensinar e sensibilizar o
professor-aprendiz para que, através de atividades dinâmicas e
desafiadoras, despertem no sujeito-aprendiz o gosto e a curiosidade
pelo conhecimento. Curiosidade que segundo Freire (1997) é natural e
cabe ao educador torná-la epistemológica.
Tudo se decide no processo de reflexão que o professor leva a cabo
sobre sua própria ação (Nóvoa, 1995).
O homem
da ciência e da técnica perdeu a felicidade e a alegria de viver,
perdeu a capacidade de brincar, perdeu a fertilidade da fantasia e
da imaginação guiadas pelo impulso lúdico (Santin,
1994).
Que a sala de aula seja um ambiente em
que o autoritarismo seja trocado pela livre expressão da atitude
interdisciplinar (Fazenda, 1994).
Que as aulas
sejam vivas e num ambiente de inter-relação e convivência (Masseto,
1992).
A formação lúdica possibilita ao
educador conhecer-se como pessoa, saber de suas possibilidades,
desbloquear resistências e ter uma visão clara sobre a importância
do jogo e do brinquedo para a vida da criança, do jovem e do adulto
(Santos, 1997; Kishimoto, 1999).
A afetividade
como sustentáculo significativo e fundamental de uma pedagogia que
se alicerça na arte-magia interdisciplinar do ensinar-aprender
(Rojas, 1998).
Sala de aula é um lugar de
brincar se o professor consegue conciliar os objetivos pedagógicos
com os desejos do aluno. Para isso é necessário encontrar equilíbrio
sempre móvel entre o cumprimento de suas funções pedagógicas e
contribuir para o desenvolvimento da subjetividade, para a
construção do ser humano autônomo e criativo. Credita ao aluno, isto
é, 'a sua ação, à parte de responsabilidade no desenvolvimento.
Mesmo procurando fazer sua parte, o professor e a escola
dão/respeitam a possibilidade de que outra coisa aconteça.
Como
tão bem afirma Tânia Fortuna: Brincar na sala de aula é uma
aposta.
Referências
Bibliográficas:
VYGOTSKY, L.S. (1993) Pensamento e
linguagem. São Paulo: Martins Fontes.
FORTUNA, Tânia Ramos.
Formando professores na Universidade para brincar. In: SANTOS, Santa
Marli P.dos (org.). A ludicidade como ciência. Petrópolis: Vozes,
2001, p.116.
FAZENDA, I. C. (1995) A Interdisciplinaridade:
história, teoria e pesquisa. Campinas/SP, Papirus.
MORIN, E.
(1999). Amor, Poesia e Sabedoria. Lisboa: Instituto
Piaget.
LUCKESI, Cipriano Carlos. Educação, ludicidade e
prevenção das neuroses futuras: uma proposta pedagógica a partir da
Biossíntese. In: LUCKESI, Cipriano Carlos (org.) Ludopedagogia -
Ensaios 1: Educação e Ludicidade. Salvador: Gepel, 2000.
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Profª. Esp. Anne
Almeida
Licenciada em Educação Física Pelas
Faculdades Montenegro - Ibicaraí, Bahia;
Especialista em Educação
Física Escolar pela Universidade Salgado de Oliveira -
RJ
Professora da Rede Estadual em Itabuna Bahia:
Colégios:
Eraldo Tinoco Melo e Colégio Modelo - Luis Eduardo
Magalhães;
Docente Das Faculdades Montenegro nos cursos de
Educação Física e Pedagogia;
